17.7.19

Love in Stars


Começo por dizer que falhei redondamente, de uma forma desastrosa, comigo, connosco. Depois decido dizer-te tudo o que não tenho coragem de te gritar na cara porque Deus sabe que se estivesses à minha frente, gritar seria a ultima coisa que me passaria pela cabeça. Enquanto exponho de forma avassaladora tudo o que me atormenta e tudo pelo que passei sem ti, eventualmente as lágrimas escorrem-me pelo rosto e a certo ponto já não percebo nada do que estou a sentir. Contigo nunca soube ao certo o que estava a sentir, acho que peguei em tudo o que tinha dentro de mim e tentei calar ao máximo possível para que ninguém ouvisse, coloquei tudo no âmago da minha alma e esperei que ninguém tivesse coragem de remexer, nem mesmo eu.
Por vezes tive que ser eu a resolver os problemas e admito que foi péssimo, foi tão terrível colocar tudo o que tinha no colo da outra pessoa como a dor que guardava quando ainda estava dentro de mim. O que tinha entalado na garganta para dizer e preso no coração por sentir estava agarrado às minhas próprias paredes que por tantas vezes terem ruído, já não agarravam o que sobrava. E enquanto o que me dói está no teu colo, eu não posso estar. Enquanto tentas cuidar do que me magoa, ninguém cuida de mim. Fiquei sem nada e eu que tinha tudo...
Já não me lembro em que consiste esse tudo, agora na minha memória é tudo um espaço branco e nos dias maus, um espaço preto.
Nunca soube pedir para ficarem e contigo não tive hipótese de tentar. Acho que estava escrito nas estrelas ou assim... mas agora olho para elas e não vejo letras, então explica-me como é que tu as conseguiste ler?
Talvez as minhas estrelas teimem em apagar tudo o que é teu ou tentem colidir nas tuas para que eu não te esqueça. Não sei, sinceramente não as percebo. Não entendo, mas aceito que tenhas partido e posso garantir-te que nunca te esqueço mas não te estou sempre a relembrar, e penso que é o suficiente para aquilo que me resta no futuro. Os próximos 60 ou 70 anos serão sem ti e tudo o que me resta é o que me tem restado até agora.
O que eu preciso de te dizer é uma verdade, e como a maior parte das verdades, magoa. Eu não tenho saudades tuas. E consigo dizer-te isto enquanto desejo de uma forma louca que estejas aqui ao meu lado, enquanto desejo de uma forma louca que tudo isto seja um pesadelo e nunca tenhas realmente ido embora. Eu sei que me perdoas por tudo o que não te cheguei a dizer, certo?



Mas, por fim, pergunto-te: quem devo culpar pelos meus diversos fins? mesmo aqueles em que não havia mais nada que pudesse fazer sem ser dizer adeus, ou mesmo nos que não me deixaram dizer nada. Sinceramente posso dizer-te, há quem nem me tenha visto partir, há quem me tenha somente virado as costas ou batido com a porta. Há quem tenha chorado quando não havia mais pelo que chorar. Há quem me tenha agarrado na mão e pedido para não ir como quem pede algo tão simples como pestanejar. Mas pestanejar é tão mais fácil e involuntário...



15.7.19

O que Encontrei no Amor

O que encontrei no amor 
Mãe, eu vou-te explicar.

O amor para mim sempre teve outra forma, não era alto, nem loiro nem tinha olhos azuis, não foi à primeira vista, nem à décima passagem, não era suposto ser e não devia ter sido. O amor não anunciou a sua chegada, não bateu à porta e não me chamou, mas quando entrou garanto-te que dei por ele aliás, não houve ninguém que não tivesse reparado que o amor tinha batido à minha porta. E entrou, penso que sem autorização mãe, mas entrou. O amor não era perfeito e queria ter sempre razão, nem sempre usava perfume, camisas ou sapatos daqueles elegantes, tu sabes. Mas acima de tudo, não me beijava quando eu mais queria, nem me abraçava quando eu fazia beicinho. Mas nem por isso deixou de ser amor. Ele era diferente de tudo o que sempre pensei que seria, mas se há coisa que foi, foi amor.

Mãe, por vezes ele deitou muitas lágrimas e fez-me chorar, o amor nem sempre foi o que prometeu ser e nem sempre cumpriu as promessas que fez. E mudou-me porque é isso que o amor faz. Molda-nos até deixarmos de ser nós mesmas para ser dele e eu fui dele, todas as vezes que num só olhar ele me atravessou como se eu fosse transparente. O amor conhecia-me do avesso, todas as minhas entranhas lhe estavam expostas e assim que vislumbrou o meu coração agarrou-o e sangrou-o, nunca mais o largou. Dei-lhe cada pedaço meu e enquanto os via a ir embora, eu fui feliz.

Os beijos do amor às vezes sabiam a tabaco. Às vezes a álcool, outras vezes uma mistura de álcool com tabaco e um toque de tristeza. Parecia o cheiro do pai quando chegava a casa já tarde enquanto te deitavas no sofá a chorar. Muitas vezes quis que soubessem a loucura e felicidade, quem sabe até paixão. Tu sabes, aquele sabor que nos baralha. Mas na boca do amor nem sempre encontrei amor. Aliás, a sua boca nunca me procurou como eu procurei a sua. Mas eu sei que foi amor, não foi mãe?

Por vezes o amor foi violento nas palavras, bruto nas atitudes e cobarde nas desculpas, mas eu fiquei. Quando é amor, ficamos certo? Por vezes não foi colorido, não foi amizade, não foi nada enquanto conseguia ser tudo para mim. Sabes, às vezes o amor assusta-nos porque num momento é, e logo depois deixa de ser e nós nunca sabemos o que esperar de algo tão inconstante como o amor em forma de outra pessoa, pelo menos quando o nosso é tão permanente.

O amor levantou-me a mão como quem quis acabar com o mundo e o meu nunca mais girou de forma igual... para doer não precisa de chegar a tocar e garanto-te que me doeu. Naquele momento eu fui a mesma menina quieta e calada para os gritos incessantes do pai. Naquele momento, tudo o que eu tinha era o medo que sempre tive antes. Mas tu dizias que o pai me amava mesmo quando me gritava então eu sei que é amor quando ele me grita, quando me faz sentir pequena de novo, quando me diminui.

Uns dias depois o amor tocou-me mãe e eu não consegui fazer nada, não me consegui movimentar à medida que as lágrimas me escorriam pelo rosto. Baixei os braços porque nem senti que os tinha e o que sobrou do meu coração, partiu-se. No entanto, consigo garantir-te que foi amor porque no dia a seguir houve flores que cheiravam tão bem e tinham tantas cores, faziam-me lembrar os lápis de cor que o pai me dava no dia a seguir a ralhar e sim mãe eu fiquei. No dia seguinte o amor passou a sua mão pelo meu rosto enquanto as células do meu corpo dançaram ao toque da sua pele como se de música se tratasse e eu lembrei-me de quando o pai me dava um beijo na testa e eu era a “menina do papá”, então eu fiquei mãe. E por favor, não te atrevas a dizer que não é amor porque é! Eu oiço a rouquidão da sua voz enquanto as desculpas o arranham na garganta ao tentarem sair. E eu vejo nas suas lágrimas salgadas que ele está tão triste quanto eu. Eu sei que dentro do amor há arrependimento porque ele chorou e ninguém chora se não estiver a sofrer certo?

Mãe tu sabes que quando é amor, perdura... mesmo quando as pessoas já não estão. Quando é amor, sobra... Mesmo quando já levaram tudo. Quando é amor não deixa de ser amor depois dos choros, gritos e fins. E mãe, houve tantos fins... houve fins que me torturaram e nunca me permitiram um novo começo. Houve dias em que terminei e no dia a seguir não soube como recomeçar, tu sempre soubeste?

Já não há maquilhagem que tape o que o amor me fez e eu não sei o que fazer. Já não me doí o corpo e o meu problema não são os hematomas, agora é a alma que tem tons esverdeados e roxos, é pior. Já não tenho amor por mim. Não tenho para onde ir e de qualquer maneira tu não estás, ninguém está. O mundo inteiro diz-me para ir, mas eu só sei ficar, então ensina-me mãe, não quero mais isto. Porque não me ensinas a ir?

Hoje sei que não devia ter ficado mãe. Hoje peço-te que não chores, não havia nada que pudesses ter feito, não havia nada que me salvasse... O que encontrei nele foi tudo menos amor, mas a culpa não é tua, então por favor não chores.

Amanhã é outro dia e o amor é o que tenho dentro de mim.

Espero que tenhas percebido,
Adeus mãe.

Zayla