14.5.17

Soulmate

Acho que és a minha alma gémea pela quantidade de vezes que me destruíste.

Diz-me: quantas vezes foste e voltaste? quantas vezes o fizeste sabendo que pedaços de mim faziam a mesma viagem? contaste ou os dedos das mãos não te chegaram?
Deixei de contar quando já não valia a pena números, quando
já não conseguia pensar.

Instalaste o caos dentro de mim e quando o incêndio acalmou, as cinzas eram o sofrimento a queimar por dentro e quanto mais vezes ias e voltavas, mais vento fazias. E vivi constantemente os teus sopros que levantavam achas para a fogueira que insistias acender e apagar.

Quando foste e não voltaste por muito tempo, acabei por conseguir sarar todas as feridas e queimaduras que me causaste. No entanto, nunca esqueci toda a dor que me fizeste passar. Mais tarde apercebi-me que escolhi sofrer por ti mas que a dor era inevitável, que nada importava mais pois valeu a pena só por teres sido tu que a causaste. Amei o que me matava e não esperei nada mais do que viver.
O amor foi tudo o que ficou quando foste embora, foi eu perceber que era amor o que sentia e dor o que ia sentir.

Deixaste-me arder como estrelas e deste-me espaço como se eu fosse o universo. Foste um buraco negro que engoliu tudo o que te dei, levaste tudo contigo, guardaste-me como poeira interestelar e nunca soubeste como me devolver à minha galáxia. Quando partiste apaguei-me, extingui-me. Quem eu era, deixei de ser. Mudaste-me irremediavelmente, nem mesmo tu podias reconstruir todo o caos que me tornei.

Acho que és a minha alma gémea pela maneira como me mudaste.

Conheci-te muito nova, quando pouco ou nada sabia do sofrimento, hoje relembras-me do que é e do que ainda consegue ser.
Depois disto sei do amor mais do que devia saber. Depois de ti adicionei regras e estabeleci limites e entendi que talvez não fosse mais haver alguém como tu foste para mim. Tive de aceitar que, se realmente eras a minha alma gémea, então eu tinha experimentado isso muito cedo, na altura errada e tinha percebido tarde de mais.

Acho que és a minha alma gémea e sei que não sou a tua.

Acho que o mais triste de tudo foi eu não ter sido a tua alma gémea também. Foi teres nutrido um sentimento forte por mim mas não ter sido tão grande como o meu por ti. Foi teres voltado um tempo depois e perceber que não te podia aceitar pois sei que me iria incendiar de novo por ti, iria queimar tudo o que restava e deixar as cinzas tomarem o meu lugar. Iria deixar de ser, para tu seres.
Nunca quis que fosses a minha alma gémea por achar que as coisas dessem certo entre nós desse modo, nada disso... Não conheço as regras do amor, o código das almas gémeas, mas acredito firmemente que não nos é permitido ficar para sempre com a nossa. Só se mede o tamanho de um amor quando se perde esse mesmo e se tivesse ficado contigo não iria entender o quão importante foste. Hoje vejo-te feliz e pergunto-me como tive coragem de te rejeitar quando eras tudo o que sempre quis. Como tive força para perceber que a minha alma gémea não me era compatível e que o que eu sentia por ti tomava dimensões bastante distintas das tuas e acima de tudo, como tive força para não sofrer com isto.


Talvez tenhamos várias almas gémeas - espero que sim. - Talvez tenha sido a alma gémea de alguém, ou talvez venha a ser. Talvez possamos mesmo ficar com a nossa ou talvez não exista nenhuma. Mas tu existes e sendo ou não a minha alma gémea, fazes parte de mim e moldaste quem eu sou, modificando o que fui.

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