26.8.13

The Diary Of a Childhood - Last Breath

Querida Inês,
Como estás? Eu estou sempre igual. Sempre a pensar no mesmo e com os mesmos dramas de sempre. Afinal é disso que a adolescência é feita certo?
Há uns dias atrás, o Quintino Aires disse na TVI que nenhuma criança consegue crescer psicologicamente sem o pai ou sem a mãe. Porque "precisamos do braço forte do pai para acreditarmos em nós e nos outros...". Talvez eu não tenha crescido o suficiente e provavelmente nem virei a crescer.
A Paula disse-me na cozinha quando estava a fazer o bolo de chocolate: "És uma gaja, e as gajas não ouvem e não sentem. Gosto muito de ti. Sabes disso." e eu soltei um sorriso lacremejante e junto com a lágrima, veio um beijo dela na minha bochecha. Ela sabe. Ela sabe que tudo o que se passou até hoje foi largado para cima de mim e que eu carrego este peso à demasiado tempo, mas não faz nada quanto a isso. É uma cobarde como todos os outros.
Eu tento enfrentar mas a minha mãe simplesmente não quer ouvir sabes. Fecha-se e mete as mãos nas orelhas como uma típica criança. Estou tão farta. Eu pensei que a escrita ajudasse como uma terapia, pelo menos foi o que a Psicóloga mandou fazer mas já passaram dois anos e nada mudou. Melhorei no inicio, mas é tanta dor que nada a consegue apagar. Sinto-me sozinha, cansada e com medo, mas desaparecer é demasiado cobarde da minha parte.
Estou agora a ouvir o novo relógio de estação que a minha mãe me comprou e sabes como eu adoro relógios. O tic-tac-tic-tac-tic-tac diz-me que está na hora de me despedir.
Queria agradecer-te por teres gostado de mim quando nem eu própria gostei. Por teres cuidado de mim quando mais ninguém o fez. E por me teres ouvido sem  julgar.
Acho que está na altura de acabar com isto, estas cartas sem destino já não fazem sentido nenhum. Desculpa. És um pedacinho de mim. Amei-te enquanto pude.
Com isto despeço-me com lágrimas nos olhos, de felicidade e tristeza. Com orgulho no coração.
Sinto a tua falta, talvez só hoje, talvez só amanhã, talvez até sempre.
Um beijo, um abraço da tua sempre,
Beatriz.
P.s.: Estou a pensar em fazer uma coleção de relógios. Como o tempo passa ! vou pará-los conforme os momentos importantes da minha vida, aqueles que eu queria que durassem para sempre. Concordas? Obrigada meu amor, quando te conheci teria parado um relógio só por ti, espero que saibas.

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