1.9.12

Bichinho da Conta


Nunca gostei muito da época do verão. A luz e o dia, em especifico. Isso nunca me fez diferença. Sempre achei tão enfadonho quanto eu e talvez seja por isso que não gosto. As folhas verdes das árvores dançam com a brisa quente. O barulho das pessoas a ecoar nos meus ouvidos. As camas sem nada, apenas com humanos. tudo isso tão presente. Eu gosto do calor, gosto de sentir o aconchego que ele me dá, gosto das ondas que ele emana por cima do alcatrão da estrada e gosto do chão ainda quente de noite, gosto do calor não em demasia, sou como tudo, eu enjoo das coisas. Sempre preferi o escuro e a noite. As árvores castanhas despidas a contrastar com a neve esbranquiçada no banco do jardim. Os candeeiros a iluminarem o caminho. As ruas recheadas de solidão. O barulho das ondas do mar a embater nas rochas. As casas quentes, acolhedoras e as típicas camas cobertas das mantas mais quentes. As gotas da chuva a caírem na minha cara, nos meus olhos. A lavar a minha pele dos cheiros que ficaram. A lavar a boca dos beijos sentidos e a lavar por dentro a saudade, a desilusão e a tristeza. Depois, existe a carência, a falta de algo - ou alguém - para aquecer o nosso coração. O músculo que nem mil chávenas de café quente a largar vapor, ou cobertores feitos de pêlo conseguem aquecer.
Mas também me canso do frio, eu canso-me de tudo. Canso-me dos dias pequenos, da falta do parque para brincar. Canso-me das nuvens e peço de novo o calor e enrolo-me como um bichinho de conta à espera que algo mude. E enquanto eu penso, falo, escrevo e descrevo o que me cansa. As pessoas cansam-se de mim.
A melhor recordação do Inverno era sem dúvida o final do dia. No autocarro a olhar pela janela, a chuva a embater nela como se me quisesse atacar e eu a olhar as árvores a passarem e a perguntar-me como seria estar no meio daquela floresta verdejante. De certo modo, era o único sitio onde me sentia segura, onde sabia que nada nem ninguém me poderia magoar, não havia ninguém para tal. E quando chegava a minha paragem, eu saía, saía triste por entrar noutro mundo que mesmo estando preparada, me iria doer. A sensação de mais um dia passado, a aproximação da minha velhice que, mesmo sendo jovem, se notava a cada dia. O rosto pesado, as feições diferentes, as rugas pequenas dos sorrisos e dos olhos chorosos. Tudo isso se notava a cada dia que passava e ainda assim, eu saía ciente que no dia seguinte voltaria a entrar e mais uma vez, iria estar segura.


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