22.4.12


e finalmente eu estava vazia, vazia até demais. qualquer palavra dirigida a mim não tinha qualquer efeito no meu cérbero. aquele sofrimento tortuoso tinha desaparecido e com ele tinha levado os sonhos. talvez se tenha cansado daquela pessoa irritante que não sentia nada. Finalmente o meu jogo tinha acabado, não desisti por querer mas sim por cansaço. era apenas um peso na vida de toda a gente que por norma me vinha falar. apesar de não quererem saber de como estou, apesar de não se importarem comigo, apesar de não estarem para aí virados.
vivi muito tempo no pânico. no pânico de perder pessoas. por me deixarem ou simplesmente por morrerem. e esse meu pânico crescia à medida que os meus laços aumentavam.
para ir esvaziando, tive de enfrentar perdas. não posso dizer insuportáveis, porque as suportei. tive de saturar dores secas. pois não largava lágrimas, estava a secar praticamente tudo. incluindo os meus gritos cavos que mais tarde se tornaram mudos.
era necessário preencher este espaço. mas com o quê ? o meu coração parou de bater já algum tempo. o meu corpo estava imune a qualquer promessa. já não aceitava nada nem ninguém. automaticamente comecei a ser fria e egoísta não para com os outros, mas sim para comigo. amava-os mais do que aquele ser monótono. comecei a ser substituível por não fazer diferença em lugar algum e no entanto: seca, vazia, fria, egoísta, substituível, cansada continuei, continuei a existir, pois já tinha desistido da viver.
as pessoas começaram a odiar-me pelo facto de ter mudado e eu, sorria por saber que afinal, alguém sentia algo por mim, alguém que, mesmo me odiando, sabia da minha existência e lhe dava importância e foi aí que esse ódio cresceu, quando eu comecei a sorrir, a partir do momento em que mostrei a felicidade inexistente, aqueles ossos estalaram. não suportavam qualquer pensamento feliz na minha cabeça. e o ódio ia aumentando, aumentando, aumentando a cada dia que passava. por ter algo que essas pessoas não tinham. uma alma, vazia sim, mas tinha-a. e a partir dessa fração de segundo, a partir desse descobrimento o objectivo foi roubar-ma. nunca conseguiram. ela estava destinada a mim. agarrou-se bem a mim e saboreou aquelas lágrimas. mas mesmo que tentassem não iriam conseguir suporta-la, já vazia para quê ? ocupar espaço ?
desejei ter saudades de quem não tinha chegado a conhecer, menti-me para me convencer. desejei amor vindo de todas as partes. Desejei amar-te. mas não se ama alguém que não se conhece certo ?
cheguei a um ponto em que todos me odiavam, não por mim mas por ti. não era que quisessem, mas não tinham escolha, não conseguiam dominar aquele sentimento odioso sobre mim que crescia bem lá no fundo deles e eles sabiam que lá estava. "Deus tirou-me algo bom para me dar algo melhor" a frase que me ficou na cabeça até hoje. a frase que todos vocês agarraram com as vossas almas e daí o odio, daí o desespero por eu cá estar. "algo melhor" consideram-me melhor e eu nunca cheguei a perceber porquê. eu odiava-me mais do que qualquer outro ser existente. a questão era ou ela e ele não sentiam ou eu era fraca. só me restava a fraqueza. nunca os apanhei a chorar, em 14 anos nunca uma lágrima escorreu por aqueles olhos à minha frente enquanto eu, mesmo à sua frente desejei morrer um dia. enquanto cada vez que ele entrava no quarto estava eu estendida na cama com o rosto molhado e encarnado.
magoa-me saber que tenho uma parte de ti dentro de mim e não sei qual é. magoa-me saber que o teu sangue me corre nas veias e eu mal te conheci. magoa-me saber que se eu não tivesse aparecido, tu podias cá estar. daí o meu ódio por mim.


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