6.1.12

(sofiavieira)

«Que farias do meu corpo se despido das palavras ? que farias ?, se fosse apenas presente do indicativo, sem um futuro do subjuntivo ou um pretérito mais que perfeito ? sim, que farias ?, se eu quase analfabeta, ignorante e simplória, se a minha escolaridade pouco mais que a obrigatória ? se a linguagem de carroceira e as frases ás três pancadas, se eu nada de aforismos, silogismos ou significados ? se à tua frente despojada, oferecida, toda instinto animal, toda líquidos que escorressem, músculos que te apretassem, sons cavos que mal se ouvissem ? que farias com o meu cheiro ?, demasiado acre, demasiado doce ?, e com a violência obscena da minha presença física a ocupar-te a ti e à tua visão periférica ? se sem dedos nem jeito, muda, disléxica, desarticulada, nada escrevesse, nada dissesse ? que farias do meu corpo se soubesses que esta não sou eu e que tu és tu por acaso, pois quando não minto, roubo, e que aquilo a que atribuis tanta beleza é a cópia da cópia de um copyright ? que farias do meu corpo se as palavras não fossem minhas mas tuas, apenas ?»

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