3.12.17

Perpetuação de Pedaços

Somos menos do que juramos que seriamos juntos. E foram tantas juras e promessas...

Fomos o friozinho na barriga, o tremer de nervosismo, fomos sorrisos e risos à toa, bochechas rosadas e corações quentes.
Fomos o enjoo da desilusão, as discussões e preocupações, imaturidade misturada com crescimento e erros atrás de erros.

E tantos beijos de acertos atrás de acertos...
Fomos abraços em bicos de pés, saudades à noite e reencontro de dia. Fomos como a nossa distância, pequena mas por vezes parecia enorme. Demos a mão distraidamente e abraçamos desenfreadamente. Fomos um primeiro beijo rápido e tímido e um último beijo demorado e audacioso.
Fomos eu e tu em demasia e nós em tão pouca quantidade. Fomos uma mistura do nosso passado individualmente e do que queríamos que tivesse sido o futuro juntos.



Mas hoje pertences-me quando quero e quando não quero. Quando preciso que me pertenças e quando preciso que soltes o pedaço do meu coração que tão bem guardas.
Hoje és uma certeza do que me tornei e um ponto de interrogação do que serei.

Tu sabes que nem sempre me lembro de ti mas que nunca te esqueço.
És a minha inspiração quando a mente está vazia por teres sido a minha primeira respiração mais alterada.
És a mensagem que cai de vez em quando no meu telemóvel e que não impede o sorriso mais discreto de se mostrar timidamente.
Ambos sabemos que as saudades que sentimos um pelo outro são efémeras, quase nulas. Que não há necessidade de longas conversas ou irmos beber um café por ai, não teríamos muito a contar... nada seria tão interessante como as crianças que fomos quando nos apaixonamos e não soubemos o que fazer e como agir.
Sentimos para não cairmos no esquecimento. E eu sei que não nos esqueces.



Em tão pouco tempo mudaste quem eu era porque duraste mesmo depois do nosso fim. Aliás tu és a continuação do nosso fim quando me perguntas como estou e dizes que estás feliz. Se me dizes que estás feliz eu fico bem. Quero-te sempre bem meu amor.
Cumprimos uma das promessas: o carinho e a amizade que tenho por ti é o nosso para sempre.


Eu vou perpetuar-nos em palavras.


19.11.17

Spring: Tonight I choose to walk away

Estavas encurvado sobre ti mesmo, olhavas para o chão sem ver, com o olhar perdido nas pedras da calçada. As tuas mãos geladas e brancas, características da tua fraca circulação, entrelaçavam-se nervosamente uma na outra. A tua cara não tinha expressão alguma para além de enunciar o fim do teu mundo. Tu sabias o que estava a acontecer.

Com as minhas duas mãos peguei-te na face e inclinei-me sobre ti. O teu olhar atravessava-me, era como se eu não estivesse ali, era transparente para ti. Dei-te um último beijo e os nossos olhos fecharam-se. Não podia chorar. Chorar era um pedido de socorro, era pedir-te que voltasses para as nossas ruínas em busca do que sobrou de nós. Era pedir-te que lutasses quando já não tínhamos armas para a guerra. Era a afirmação de que ainda havia solução e que esta não seria um problema... e era.
E eu não podia permitir que lutasses pelo que fomos. Eu voltaria para ti todas as vezes que me pedisses. 
Quando abriste os olhos eu vi o mar. Neles havia água salgada a fazer brilhar o teu castanho esverdeado que tantas vezes me fez sorrir.

Virei as costas a tremi, senti todos os pedaços estilhaçados do meu corpo a estremecer. Sabia que se desse mais um passo iria acabar contigo, comigo. Estava nas minhas pernas a decisão de pôr um fim ao que vivemos juntos, a nós. 


E por cada passo que dei a seguir, uma lágrima tua caia.
Por cada passo que dei a seguir, desejei não ouvir mais porque os únicos sons emitidos naquela tarde eram o partir do teu coração.
Por cada passo que dei a seguir, desejei ter força para o próximo. 

Todas as pessoas que estava na rua perceberam que eu queria voltar atrás mas o meu pensamento impossibilitava-me. Toda a gente nos viu partir e toda a gente chorou connosco porque éramos almas gémeas no universo errado. E eu juro-te por tudo que eles sofreram connosco.



Mas ninguém sofreu mais do que eu e tu juntos e em separado. Ninguém soube a resolução da equação que vivemos. Nunca ninguém nos soube explicar e vê os anos que já passaram...
Nenhum matemático ou engenheiro na rua souberam explicar-nos como é que duas pessoas certas, viveram o tempo errado e mesmo assim foram tão felizes juntas.


Quando cheguei a casa desfiz-me em lágrimas. Inundei-me por tudo o que fomos e tudo o que não conseguimos ser.
Foste a minha melhor primavera.